Em projetos de consultoria, é comum encontrar empresas que operam em setores de margem elevada e, ainda assim, sentem que o resultado poderia ser maior. O caixa entra, a margem aparece no fechamento do ano, mas ninguém sabe dizer, com precisão, de onde exatamente esse resultado vem.
Este artigo compartilha aprendizados de um projeto de Inteligência Financeira aplicado em uma empresa de locação de equipamentos para construção civil (estruturas metálicas e andaimes), com estoque físico de alto valor, contratos recorrentes e margens operacionais historicamente acima de 50%.
O objetivo não era aumentar a margem, pois a empresa já operava com margens elevadas, mas entender, produto a produto, de onde vinha o retorno e onde o capital estava apenas parado.
Quando chegamos à empresa, a visão financeira já era favorável: margem operacional acima de 50%, base de clientes recorrente, contratos de locação de médio e longo prazo. Não havia, à primeira vista, motivo para preocupação.
Mas a empresa não tinha DRE nem fluxo de caixa estruturados de forma recorrente. O fechamento contábil existia, mas não a apuração gerencial. As decisões de compra de novos equipamentos eram tomadas sem uma leitura clara de quanto capital já estava investido, em quais peças, e com que retorno.
A liderança sabia que o estoque de equipamentos era o principal ativo da empresa. Mas não sabia dizer qual parte desse estoque realmente sustentava o resultado e qual apenas ocupava espaço e capital.
Antes de qualquer plano, foi feito um diagnóstico objetivo do grau de maturidade de gestão financeira da empresa, avaliando pilares como compras, gestão financeira, indicadores, processos, rotinas e departamento pessoal.
O diagnóstico mostrou uma empresa acima da média histórica em indicadores financeiros e em processos financeiros, sinal de que parte da disciplina de gestão já existia. Mas revelou também um gargalo relevante em compras, o pilar mais distante da média de mercado, e um resultado abaixo da média em gestão financeira como um todo.
O benchmarking também trouxe um dado incômodo: mesmo com margem operacional acima de concorrentes de porte similar e maior, a eficiência de giro do ativo (quanto faturamento cada real investido em estoque gerava) era menor. A empresa tinha um ativo grande e rentável, mas usado com menos eficiência do que o mercado.
Com o diagnóstico em mãos, o plano foi desenhado em camadas: primeiro construir a base contábil e financeira recorrente, depois qualificar a rentabilidade do ativo como um todo, e só então levar a análise ao nível de cada produto do estoque.
A implementação respeitou o ritmo da empresa e a granularidade real dos dados disponíveis. Cada etapa só avançava depois que a anterior estava consolidada, sem pular direto para a análise mais sofisticada sem antes ter uma base confiável.
A lógica foi simples, mas decisiva: entender antes de decidir.
DRE e fluxo de caixa passaram a ser apurados todos os meses, com rotina de fechamento gerencial. A depreciação do acervo de equipamentos foi recalculada a partir de um levantamento físico de estoque mais preciso — corrigindo uma distorção que superestimava a margem histórica da empresa.
O retorno sobre o capital investido no estoque (ROIC) passou a ser calculado e comparado ao custo de capital (WACC) da empresa, com benchmarking direto contra concorrentes do setor. Isso trouxe uma primeira resposta objetiva: a empresa gerava valor acima do seu custo de capital, mas com menos eficiência de giro do que o mercado.
Um indicador de payback, tempo necessário para cada equipamento retornar, em caixa, o capital investido, foi criado, inicialmente agregado por família de produto.
A partir desse ponto, a gestão passou a enxergar o estoque como carteira de investimentos, não como depósito.
Com a base organizada, foi possível avançar para uma análise mais granular. O indicador de payback, antes calculado por família, passou a ser apurado produto a produto — e o resultado surpreendeu: uma família de equipamento se pagava em cerca de 7 meses, enquanto outra levava quase 88 meses, ou praticamente 8 anos.
Essa diferença nunca havia sido quantificada. Ela mostrou que, dentro do mesmo estoque, havia produtos de altíssimo giro sustentando produtos que praticamente não davam retorno.
A partir daí, veio uma pergunta mais sofisticada: qual é o nível ideal de ocupação de cada produto? Ao contrário do que a intuição sugere, nem sempre 100% de ocupação é o ideal. Cada peça tem um ponto de equilíbrio entre dois custos: o de faltar estoque (perder uma locação por falta de disponibilidade) e o de sobrar estoque (capital parado, gerando pouca receita). Essa relação — batizada de Cu/Co — mostra que, quanto mais caro é faltar um item em relação a deixá-lo parado, maior deve ser sua taxa de ocupação ideal.
Um exemplo do próprio estoque ilustra bem o conceito: um dos tubos estruturais mais usados pela empresa apresentava ocupação de 88,2%, mas seu ponto ótimo calculado era de 75,5% — um item sobre-ocupado, com risco real de recusar contratos por falta de disponibilidade. Do outro lado, havia produtos com ocupação bem abaixo do próprio ponto ótimo: peças disponíveis sobrando, que precisavam de mais esforço comercial, não de mais compra.
Com esse critério aplicado a cada item do estoque, dezenas de produtos foram reclassificados: parte deles sinalizada para priorizar aquisição, outra parte para apenas monitorar, e mais da metade — o maior grupo — para redirecionar esforço comercial em vez de comprar mais. A decisão de compra deixou de ser feita por percepção e passou a ser feita item a item, com critério.
Cada produto do estoque passou a ter clareza sobre seu papel: gerar retorno ou ceder espaço para quem gera.
Ao longo do projeto, algumas entregas se consolidaram como pilares da nova gestão financeira:
Além disso, o levantamento físico do estoque — peça a peça — passou a ser a base de todo o processo de apuração financeira, algo que antes não existia com esse nível de precisão.
Com a nova estrutura em funcionamento, os resultados começaram a aparecer de forma prática, conectados ao dia a dia da gestão:
Mais do que ter margem, a empresa passou a saber de onde vinha o seu resultado — e para onde direcionar o próximo real investido.
Este projeto reforça uma verdade recorrente na gestão financeira: margem alta sem decomposição por produto esconde ineficiência de capital.
A Gestão Financeira não é sobre reduzir custo ou aumentar preço, mas sobre criar critério: saber, produto a produto, onde está o retorno.